O Cifras.pt esteve, no passado dia 24 de Agosto, na Covilhã, com o Ricardo Jerónimo, a Joana Corker e o Henrique Toscano – trio que forma os Birds Are Indie. Antes do seu concerto, tivemos a oportunidade de falar um pouco sobre o inicio deste projecto, sobre o seu mais recente álbum, “Local Affairs” e muitas outras coisas. Lê a entrevista abaixo!

 

Birds Are Indie - Covilhã

Birds Are Indie – Verão no Centro Histórico (Covilhã)
Fotografia de Sound&Vision

 

 

 

Falem-nos um pouco do início deste projecto. Pelo que percebemos, nasceu quando ouviste a Joana a cantar pela primeira vez?

 

Jerónimo – Abriu-se uma luz. (risos) Sim, foi isso. Eu andava já há muito tempo a tentar convencê-la a cantar, para passarmos o tempo, visto que eu sempre gostei de tocar viola. Eu gostava de pôr um disco a tocar e ir acompanhando, sendo que sentia a falta que alguém cantasse, porque eu também não cantava. O problema é que a Joana sempre se recusou, mas houve um dia que se deu aos meus encantos e/ou ameaças (risos).

 

 

Mas começaram logo com o intuito de formar uma banda, ou foi só mais numa de experimentar?

 

Je – A coisa nasceu porque fizemos uma música nossa. A Joana dizia: “Eu não sei a letra e não sei cantar”, então a gente fez uma música nossa e cantávamos essa. Quando estávamos num círculo de amigos e a cantávamos as pessoas diziam: “Ai que giro. Mas vocês agora têm uma banda?”, e nós respondíamos que não, que só tínhamos feito esta música. Depois achámos aquilo giro, divertimo-nos, fizemos mais duas ou três e as coisas foram-se desenvolvendo.

 

 

Então, 2010 – uma pandeireta, uma guitarra e duas vozes. 9 anos depois – 3 elementos, mais instrumentos, 4 álbuns, mais Ep’s e singles. Era algo que vocês imaginavam?

 

Joana – Nada, zero.

 

 

Mas foram ganhando essa ambição aos poucos e poucos?

 

Je – Sim, mas de uma forma muito natural. Eu lembro-me que, na altura, só fizemos um EP porque queríamos gravar as nossas músicas para as termos guardadas. Mas depois mostrámos a um amigo nosso que é design e ele disse-nos: “Vou já fazer uma capa para o disco”. Agora que temos uma capa, mais vale por isto no MySpace. Aquilo, por algum motivo, começou a ter alguma repercussão, sendo que houve um amigo nosso que tinha o e-mail de uma netlabel, de Coimbra – a Mimi Records, que editou o EP. De repente, alguém nos convida para fazer um concerto ao vivo, coisa que nunca nos tinha passado pela cabeça.

 

 

Como é que foi esse telefonema?

 

Je – Eu tentei fazer aquela coisa do: “Claro, claro. Concerto. Sim, sim…”, mas assim que desligo o telefone, parto-me a rir.

 

Jo – Eu estava a trabalhar na Figueira e tu telefonaste-me. Eu trabalhava num sítio medonho, onde pegar no telemóvel e atender uma chamada tinha de ser em segredo. Então ele telefona-me e eu atendo: “Sim, o que é que foi?”, e ele diz-me: “Opá, não vais acreditar, pediram-nos para fazer um concerto em Évora!” (risos)

 

Je – Tivemos quase para dizer que não. Não queríamos. Mas depois, como era em Évora, quem é que nos conhece? Se correr mal, ninguém sabe. Mas a verdade é que correu muito bem. Depois ele (Henrique), que não fazia parte da banda, na altura, e mais uns amigos de Coimbra apareceram lá de surpresa. A sala estava cheia, tipo 60 pessoas, e toda a gente estava do nosso lado, do tipo “estes gajos não sabem o que estão a fazer”.

 

 

Falem-nos um pouco do vosso processo criativo, principalmente sobre a decisão de escreverem em Inglês.

 

Je – Foi a tal primeira música que apareceu. A nossa escola musical e auditiva é toda maioritariamente inglesa. Não que tenhamos nada contra a música cantada em português, sendo que há bons exemplos, mesmo na nossa altura, mas foi assim que as coisas aconteceram.

 

Jo – Eu tendo ascendência britânica é também uma maneira de homenagear essa parte familiar. Há muita gente que faz essa pergunta e acho que vou começar a responder assim. Porque não? (risos). Apoio a música portuguesa, acho importante cada vez haver mais bandas a cantar em português mas, para mim, também é bom cantar em Inglês. Como o Jerónimo disse, todo o nosso background musical foi maioritariamente na língua inglesa, portanto foi um processo natural.

 

 

Por falar nas vossas inspirações, vocês vão beber de fontes diferentes ou falam todos, mais ou menos, a mesma linguagem musical?

 

Je – O Henrique tem menos um ano que nós, por isso acabamos por ser todos da mesma geração, isto é, íamos aos mesmo sítios e trocávamos o mesmo tipo de cassetes. Além disso, temos muitos gostos em comum, apesar de, às vezes, um gostar de algo mais do que os outros. Ainda assim, acho que há ali aquela vibe dos anos 90. No geral, não temos grandes divergências. Quando estamos a compor ou a fazer arranjos e ouvimos algo de novo conseguimos dizer, ao mesmo tempo, se gostamos ou não gostamos. É raríssimo um de nós adorar algo e os outros detestarem.

 

 

Palco ou estúdio? O que é que vocês preferem? Ou tiram coisas diferentes de cada situação?

 

Je – Eu, pessoalmente, gosto do processo todo.

 

Jo – Eu detesto gravar vozes portanto, para mim, acho que é o ponto mais negativo (risos). É a pressão.

 

 

Sentes mais pressão em estúdio do que em palco?

 

Jo – Talvez. É um bocado estranho, mas é o não gostar de fazer muitas repetições. Além disso eu também não gosto de falhar. Gosto de ser perfeccionista e estar a mostrar constantemente que estou a errar, dá-me nervos. Em palco também já tive mais pânico do que tenho agora. Se errar, agora, siga caminho.

 

Je – Agora já quase não nos enganamos.

 

Jo – Quando dizes isso dá azar!

 

Je – Quando digo em palco. Antes não conta. (risos)

 

 

Sobre o vosso mais recente trabalho, “Local Affairs“. Como foi a experiência de trabalhar em Coimbra, na vossa casa, com a Lux Records e com o Blue House Studio?

 

Je – Correu muito bem! Tudo o que nós editamos, até este ultimo disco, foi auto-edição, sendo que, desta vez, a Lux Records convidou-nos para gravar e para editar. Nós ficamos muito contentes. É uma editora histórica de Coimbra.

 

 

 

Trabalhou já com nomes como The Legendary Tigerman…

 

Je – …e muitos outros! Sean Riley, Belle Chase Hotel, Tédio Boys, Bunnyranch…

 

Jo – E é um prazer trabalhar com uma pessoa que gosta de realmente de música, como o Rui Ferreira gosta.

 

Je – Sendo o Rui um coleccionador de vinis e dono de uma loja de discos, fez todo o sentido para nós trabalhar com ele. A Blue House Studio também era estar em casa, visto que estávamos no estúdio do Jorri, que, quando pode, toca também connosco. É alguém que conhecemos bem, que respeitamos como músico e que nos deixa sempre à vontade.

 

 

Sentiram que trabalhar com eles tirou-vos trabalho dos ombros? Conseguiram ter mais facilidade em trabalhar a parte mais criativa do álbum?

 

Je – Tirou um pouco, mas não muito. Nós também já fazíamos tudo por nós e era algo que já estava um pouco oleado. A grande diferença foi que eles investiram em nós, no sentido literal e económico da palavra. Muitas vezes fomos às nossas poupanças buscar dinheiro para fazer um vinil ou um videoclipe. A editora foi alguém que se chegou à frente, deu-nos confiança e disse: “Está aqui. Façam a coisa como querem fazer.”

 

 

Ainda sobre o “Local Affairs”, em termos de identidade musical como é que se diferencia dos vossos outros trabalhos?

 

Henrique – É mais cheio e um bocadinho mais cuidado, em termos de arranjos e mistura. Também houve uma grande ajuda e influência do Jorri.

 

Je – Ele também gravou no nosso disco, baixo e algumas teclas.

 

H – Há pessoal que gosta muito de usar aqueles vst’s e plugins, mas o Jorri tem mesmo os instrumentos, físicos, ali. Só isso muda logo o som e o ambiente todo. Uma coisa é gravar em casa, com uma mesa de mistura manhosa e outra coisa é gravar num estúdio, com todas as condições.

 

Jo – Sim, e também as músicas foram surgindo de maneira diferente do que nos outros álbuns. Neste, tivemos algumas tardes a tocar, só nós os 3, no estúdio, e as músicas iam surgindo. Isso, para mim, nota-se a nível de estrutura das músicas.

 

 

Finalmente, falem-me um pouco de projectos futuros. Em que palcos ambicionam tocar?

 

Jo – Coliseu dos Recreios (risos). Não sei, por acaso eu gosto de saborear as coisas no imediato. Obviamente tem que se planear as coisas, mas não penso muito nisso.

Na gíria do futebol, levar jogo a jogo…

 

Jo – É um bocadinho, sim

 

Je – Ensaio a ensaio, disco a disco (risos). Nós não somos propriamente uma banda de festival, apesar de já termos feito um festival onde nos inserimos bem – o Bons Sons. Além disso, fazemos alguns festivais mais de média dimensão. Não achamos que é a altura para irmos, por exemplo, ao Alive. Seria uma coisa desgarrada. Já estivemos no Super Bock em Stock, numa sala mais pequena, mas onde estavam umas 500 pessoas. Nesses palcos funcionamos bem, até porque também não queremos dar passos maiores que a perna. Talvez, daqui a uns anos, consigamos ir ao Paredes de Coura.

 

H – Opá, eu gosto de jogar na segunda liga e ficar lá (risos). Eu não quero subir muito, porque depois um gajo também desce.

 

Je – Nós somos da Académica, mais vale lutar para subir do que estar ali sempre com a corda na garganta.




Adicionado por

João Ribeiro

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