De onde nasceu o teu amor pela música?

 

A minha família tem muitos músicos, nomeadamente o meu pai, que tocava guitarra. Ele foi sempre muito dedicado ao blues, sendo que acabei por crescer a ouvir bom som. Foi até com ele que aprendi a tocar guitarra. Ele ensinou-me as bases e a partir daí fui evoluindo.

 

 

Sendo um jovem muito curioso, musicalmente, como foi crescer na Covilhã, no final dos anos 80, na altura em que ainda se notava um grande défice de cultura musical? Que dificuldades é que tiveste?

 

Sabes que quando éramos novos nós não ligávamos muito ao querer mostrar e promover. Era simplesmente a cena de nos juntarmos, numa garagem, e aprendermos a tocar uns com os outros. Não sentíamos essa dificuldade, porque também não tínhamos a ambição da promoção. Apesar disso, eu tive a alegria de ver muitos concertos de miúdo, apesar de ter de ser em Lisboa ou no Porto. Ainda assim, aqui, na Covilhã, havia uma coisa muito importante – toda a gente ouvia os disco do princípio ao fim. A malta juntava-se em casa para ouvir a tape e estava tudo ali a acompanhar e a tentar perceber a letra.

Hoje é uma música que se ouve. Com a facilidade das plataformas online a ideia é: “não gosto, passo à frente”, “esta é fixe, vai para a playlist”. Não se liga ao álbum, à capa, àquela sensação de folheares a capa e ler as letras, veres quem produziu, quem fez isto, quem fez aquilo. Hoje um álbum é mais um conjunto de músicas sem uma ligação, a nível de conceito.

 

 

Voltando um pouco ao início do teu percurso, fala-nos de alguns artistas que o teu pai fez questão de te transmitir e que, mais tarde, se tornaram numa inspiração para a tua carreira?

 

Lembro-me perfeitamente disso. Todos os dias, o meu acordar era com som. Era muito Pink Floyd, Dire Straits, The Breeders, Cat Stevens, Bob Dylan, Johny Cash, entre outros. Cresci muito nesse panorama musical. Apesar disso, eu gosto de tocar muita coisa, tanto que eu comecei por tocar metal e rock. O metal é muito técnico, rápido e dá-te uma adrenalina do caraças tocar quando és mais novo, visto que o que tu queres é power. Mas quando comecei a perceber o blues doutra maneira e a energia simples das coisas, comecei a tentar compor algo mais nesse panorama. Mas o metal foi a minha escola, como Paradise Lost, Anathema e Cannibal Corpse.

 

 

E achas que ainda é possível lá voltares?

 

Eu ainda ouço. Para tocar, estou disposto a tudo. Se houvesse oportunidade de fazer algo nesse género, com um grupo de pessoas, eu alinhava na boa. O que eu faço hoje devo muito ao metal. Há muita gente que fica surpreendida com isso, visto que eu toco cenas mais calmas, como folk e country.

 

 

Neste momento, gostas mais de estúdio ou de estrada e palco?

 

Obviamente que não tem sentido tu fazeres música sem que as ponhas em palco. O estúdio é a criação, é o desenvolver da tua ideia sobre a música e o conceito do disco. Eu curto bastante e tenho um estúdio onde eu sempre gravei os meus discos, sozinho. É super demoroso, mas eu gosto muito do trabalho de produção e edição. Neste disco, estou a gravar com o Bernardo, dos Diabo Na Cruz, sendo que ele está a tratar da produção. Mas o que é que eu gosto mais? Gosto das duas, visto que são energias diferentes. No estúdio tu crias e acrescentas algo mais, seja um instrumento ou uma ideia. Depois, quando tens tudo e vais para palco, vêm-te as memórias todas. A estrada e o palco é um momento muito feliz e prazeroso, para mim.

 

 

Depois de teres viajado e teres experimentado culturas diferentes, o Flávio Torres que apresentas neste último trabalho vai ser bastante diferente do que o que conhecemos até agora?

 

Sim, eu acho que é diferente. Apesar de manter uma linguagem acústica, eu gosto sempre de mudar um bocadinho. Eu vivi na Bulgária durante 3 anos e isso permitiu-me viajar muito, como por exemplo pelo leste europeu e pela África. E a viagem também era muito no sentido de conhecer a música de raiz dos países por onde eu passava, visto que aprendi e vi coisas incríveis que me inspiraram. Por causa disso, este disco é provavelmente um bocadinho mais “comercial”, com melodias diferentes, mais sonantes, com influências de outros países. A nível de letra, falo em pontos muito importantes para mim, neste momento da minha vida. Foco-me mais no sentido de nos unirmos como sociedade, numa mensagem de anti egoísmo, na ideia de estarmos todos juntos e partilharmos coisas boas e não tanto nos problemas sociais e políticos do mundo – temas mais focados no Canalha ou no Canções de Bolso. Também já nem tenho muita paciência para isso, visto que as coisas não mudam assim tanto. Se eu fosse uma Mariza que percorre o mundo a tocar, aí faria sentido continuar a transmitir a minha mensagem, para mudar alguma coisa. Mas não conseguindo mudar nada, a única coisa que posso fazer é alertar as pessoas para serem mais unidas e aproveitarem a vida enquanto estamos cá. Claro que vai sair uma música ou duas a cascar nestes gajos todos.  A nível instrumental, existem influências de vários países, seja percussões da África, ou instrumentos da Roménia e da Croácia.

 

 

Fala-nos um pouco do teu processo de criação e das alterações que sofreu ao longo da tua carreira.

 

Eu acho que foi sempre muito idêntico, excepto no início, quando não escrevia letras. Tinha uma banda de metal, chamada Cárie Mentol, em 1993. Eu compunha as músicas e um amigo meu escrevia as letras, tudo em inglês. Eu tentava escrever letras em inglês, na altura, mas não conseguia transmitir aquilo que eu queria, apesar de saber falar bem a língua. Se falares com músicos portugueses que escrevem em inglês eles nunca conseguem por lá a p*ta da alma a 100%, porque não é a língua nativa deles.  A partir do momento em que comecei a escrever em português e descobri que conseguia transmitir realmente o que eu queria, em palavras, o processo foi sempre o mesmo. Eu começo por fazer as músicas, seja guitarra ou piano. Depois, vem a segunda parte do processo, onde trauteio a letra e a melodia. Após isso, escrevo a letra por cima do trauteado, já com as métricas certas. Escrevo sobre o que me motiva naquela altura, seja um desassossego, um amor ou uma revolta qualquer. No final junto tudo e já dá para criar mais por cima desse rascunho.

 

 

Quão grande é o teu baú de músicas não utilizadas?

 

Para aí 50 ou 60. Aliás, eu neste disco que estou a gravar, fui buscar duas ou três letras a esse baú, visto que a métrica combinava com o trautear que fiz. Vamos sempre aproveitando coisas, até melodias. A melodia do meu novo single, “Na Mesma Mão”, já estava escrita há anos. Um dia estava na Serra, a passar férias, só com a minha guitarra, sem computadores nem tecnologias. A certa altura relembrei-me dessa melodia e pensei: “Epá, eu já tenho esta música há não sei quanto anos e nunca a utilizei” e pronto, nasceu a “Na Mesma Mão”.

 

 

Como é relativamente a projectos futuros? Com que artistas ambicionas partilhar o estúdio ou o palco?

 

Eu sou muito ambicioso nisso. Além disso, estou a conhecer muita gente do meio da música, sendo que, quem sabe fazer coisas, fala tudo a mesma linguagem. Estou para ver se consigo gravar, neste disco, com o José Cid – um gajo que eu curto imenso e que, apesar de estar velhote, tem uma genica e uma energia incríveis. Gostava de gravar uma música com uma linguagem algo africana, que está praticamente feita, com a Sara Tavares. Gostava também de fazer algo com Frankie Chavez, sendo que é bem possível de acontecer. Adorava também gravar com o grande Palma e com o Sérgio Godinho. Para partilhar palco, o Palma tinha de lá estar, com o Rui Veloso e, da malta mais nova, talvez a Surma, com quem me dou muito bem.

 




Adicionado por

João Ribeiro

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