O Cifras.pt foi ver o concerto dado pelos Indignu – uma banda formada pelo Afonso Dorido, Graça Carvalho, Mateus Nogueira e Paulo Miranda – no passado dia 17 de Agosto, na Covilhã. Durante a tarde tivemos a oportunidade de falar um pouco com eles sobre a sua carreira, inspirações e projectos futuros. Lê a entrevista abaixo!

 

Os Indignu [lat.] contam já com 15 anos de carreira e 4 discos lançados, mas gostavamos de voltar ao inicio. Como é que nasceu este projecto?

 

Afonso – Foi em 2004 que nos juntamos numa garagem de Barcelos, sendo que, só eu e o Paulo é que estamos desse tempo. Começámos por compor músicas de punk rock, cantadas em português, sempre a abrir, muito diferente do que o que fazemos agora. No início, sempre muito inocente, isto é, não nos passava pela cabeça ainda andarmos a tocar, passados 15 anos. Depois foi evoluindo naturalmente. Fomos gravando umas maquetes, uns EP’s e gravámos um disco, em 2010, chamado “Fetus in Fetu” , sendo que aí já estávamos a pender um pouco para o que somos hoje. Depois, em 2013, entrou o Mateus que toca baixo e piano, mas acho que a maior mudança para atingir o som que temos hoje foi a experimentação, liberdade e adição da Graça e de um violino, no álbum “Odyssea”.

 

 

O “Odyssea” trouxe-vos a oportunidade de fazer uma tour mais internacional, passando por Espanha, França e Bélgica, sendo que nesta última tocaram no Dunk Festival. Fala-nos um pouco dessa experiência.

 

A – Nós nunca fizemos tours muito grandes, apesar de termos ido algumas vezes a Espanha. Resultou muito bem porque foi dos concertos mais intensos e importantes para nós. Depois, sendo um festival de post-rock, estava um público que, em princípio, gosta do som que a gente faz. Apesar disso, a condição da banda e da vida de cada um obriga a que ponderemos bem quando vamos e como vamos. Também somos uma banda que tenta fazer as coisas com as melhores condições possíveis para darmos o máximo, visto que, ao fim de 15 anos não vale a pena estarmos a dar mais ou menos.

 

 

Contrariando a norma da rádio, em que procuram músicas de 2/3 minutos, vocês têm músicas para cima dos 10/13 minutos. Isso é uma decisão pensada ou é algo que fazem quase instintivamente?

 

Graça – Para nós difícil é fazer temas curtos. Já nos disseram muitas vezes para cortarmos as músicas e sermos mais radiofónicos, mas o próprio género do post-rock é um culto à repetição e à introspecção, sendo que tu, para pensares, precisas de tempo. Mas não é uma fórmula pensada ou programada, a coisa vai simplesmente acontecendo.

 

A – Não é uma fórmula, visto que, neste último disco temos músicas com 13 minutos e outras com 4. Apesar de, quando fazes música, gostares que o máximo de pessoas conheçam o teu som, isto é um estilo de nicho. Se tu fizeres a coisa como gostas e como sentes, esse nicho vai perceber. Sentimos que temos uma coisa muito importante – nós não somos daquelas bandas de festival que toca para não sei quantas mil pessoas num festival, mas quando a pões numa sala, não tem assim tantas pessoas a assistir. Pelo contrário, nós não temos tocado muito em festivais, mas se tocarmos numa sala há um certo número de pessoas que nos vai ver seja no Porto, Lisboa, etc… Estamos a falar de uma dimensão pequena, de 100 ou 200 pessoas, claro, mas sentimos que a dimensão acaba por estar dividida por todo o mundo. Os discos que lançámos estão todos esgotados, até o último, sendo que, na sua maioria, não foram comprados por pessoas portuguesas.

 

 

Enquanto artistas, vocês sentem que crescem mais em estúdio, em palco, ou tiram experiências diferentes de cada um?

 

G – Muito diferentes. O palco é uma catarse.

 

A – O palco é a coisa mais importante para nós, porque quem ouve os nossos discos sabe o que está a ouvir, isto é, sabe que é uma banda instrumental, que faz música cinematográfica, post rock progressiva. Agora, quem nos vê ao vivo observa um lado muito mais emocional. Para nós é muito mais gratificante, pois é o que é, está ali espelhado ao vivo. Apesar disso, como artista, o estúdio também nos faz crescer muito. Mas a Indignu é uma banda muito mais intensa ao vivo.

 

 

Sobre o vosso mais recente disco, “Umbra”, falem-nos um pouco da sua identidade e das diferenças relativamente aos trabalhos mais antigos.

 

G – Para começar, dois dos temas têm voz. Isso, sem dúvida, marca uma diferença grande, porque tanto nós como as pessoas definem-nos um pouco como sendo uma banda instrumental. No entanto, em termos de composição e do modo de criação, não é muito diferente.

 

A – Há uma diferença, que foi a subtração do Jimmy e que agora é substituído, ao vivo, pelo Pedro Sousa. Depois há discos que acabam por ter mais participação de um ou outro elemento, sendo que este aqui foi um pouco mais partilhado por todos. Como por exemplo, no “Ophelia”, a Graça esteve fora e acho que o disco teve menos “graça”.

 

G – Muito menos! (risos)

 

A – O “Umbra” acabou por ser uma conjugação de temas onde sentimos que atingimos o nosso máximo, a nível de extensão de música e de intensidade, com músicas de 11 e 13 minutos. Ainda assim, é também um disco que, ao mesmo tempo, acaba por ter convidados a cantar ou a recitar poesia, como o Manel Cruz e a Ana Deus. Relativamente ao tema, o disco tem muito a ver com os incêndios de 2017 e tentamos mostrar essa dor portuguesa, sendo que acaba por ser mais pesado, talvez até o mais negro de todos. Mas sobretudo foi essas mudanças da vida que o diferenciam, a história que faz tudo girar.

 

 

Quando estão a compor, cada um traz inspirações muito diferentes, ou estão todos, mais ou menos, na mesma onda?

 

G – Nós vamos beber inspiração a coisas muito diferentes, no entanto, quando estamos juntos, falamos uma linguagem muito comum e complementamo-nos. Eu acho que este disco é o que tem a responsabilidade mais irmãmente distribuída.

 

A – Acho que os outros discos baseavam-se muito nas guitarras. Apesar de haver excepções, no geral, era eu ou o Jimmy que dávamos o ponto de partida. Mas também havia músicas, como a “Levitação do Sahara”, em que ninguém trouxe nada de casa. Foi feita ali, no estúdio.

 

G – Eu agora tenho a mania de gravar os ensaios, porque apesar de 90% ser lixo, 10% é uma delícia.

 

A – É como garimpar ouro (risos). 90% não vale um c*ralho, mas em 10% tens meio disco.

 

 

Falem-nos de projectos futuros. Em que palco é que ambicionam tocar?

 

G – Nós queremos passar pelos festivais grandes, sendo que, à partida, não será totalmente impossível.

 

A – Há uma série de festivais, lá fora, em que gostávamos de tocar, como o ArcTanGent – um festival de música instrumental. Em Portugal, gostávamos de finalmente tocar nos palcos em que às vezes as pessoas nos dizem: “porque é que ainda não vos vi aqui?”. Há promotores que, ao fim de 15 anos, é que nos dizem: “como é que eu não vos conheço?”

 

G – Aconteceu muito recentemente. O que acontece é que ao fim de um concerto, ao vivo, geralmente, a impressão é boa. Isto é muito bom e nós ficamos muito contentes, porque é possível que as pessoas nem conheçam, ou que haja uma certa estranheza com este nome em latim, ou até pelo facto de ter um violino lá para o meio. Mas ficamos muito contentes quando dois dos maiores promotores em Portugal nos dizem: “não conhecia e gostei muito. Se calhar vamos tratar disso”.

 

A – A questão é que tu ainda sentes que há muito por fazer. Há muitos palcos que não percorreste, apesar de, ainda assim, ires subindo. Sabes que o que é não ires de elevador, mas de escadas? É o que se passa um bocadinho com esta banda.

 

G – Mas há um certo prazer em subires o teu estatuto, chegares a mais gente e teres melhor cachê, por mérito teu. Este é o nosso produto e demos o nosso melhor. Se do outro lado isso resultar num concerto melhor, ainda bem, visto que o valor real das coisas é este – é quando tu tocas e estás ali.

 

A – A nível de edição física, nós somos uma banda totalmente independente, sendo que destes discos todos que lançámos, esgotaram todos. Sem distribuidor, ficas a pensar que há realmente pessoas que gostam muito disto. Claro que é uma luta – as viagens, os ensaios, a vida familiar e pessoal. Não é muito fácil tu conjugares 2 pessoas, imagina 6. Já nem é a questão de acreditar num futuro melhor, isto é, nós temos uma paixão pelo que fazemos. É isso que nos move, apesar de ser sempre bom haver essa gratificação.

 




Adicionado por

João Ribeiro

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  1. ZR

    5 Setembro, 2019 at 13:05

    Ganda malha (banda). A violinista é uma “Graça”

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