O Cifras.pt esteve no Festival Y, no passado dia 12 de Dezembro, no Teatro das Beiras, e esteve à conversa com os Lavoisier – dupla formada pela Patrícia Relvas e pelo Roberto Afonso. Falámos um pouco sobre a sua identidade musical, os anos em Berlim e o seu mais recente álbum, “Viagens a um Reino Maravilhoso”. Lê a entrevista abaixo!




Antes de mais, como é que acham que o concerto correu?

 

Patrícia – Muito bem!

 

Roberto – A primeira vez que tocámos foi aqui e ficámos logo com uma sensação de que era um sítio especial, por isso foi muito castiço poder voltar. Não só o sítio, mas também as pessoas, já que sentimos uma aderência muito boa.

 

P – E apesar de estar frio, acho que o gelo se quebrou logo no início, o que nos deixou mais à vontade. Nós trabalhámos e montámos o espectáculo no dia 2 de Novembro, sendo que era um bocado diferente. Hoje conseguimos voltar um bocadinho à origem, já que quando começamos a escrever canções, elas surgem sempre assim – uma guitarra e duas vozes.

 

 

Gostávamos que nos falassem de dois momentos: a primeira vez que se conheceram, pessoalmente, e a primeira vez que se conheceram, musicalmente.

 

R – Pessoalmente, conhecemo-nos desde os 13 anos. Foi no âmbito escolar, no 7º ano.

 

P – Depois, no 9º ano, eu fui para um lado e o Roberto para outro. Mais tarde, voltamos a encontrar-nos e, na altura, o Roberto já tocava guitarra.

 

R – Sim, mas nada muito sério. Tínhamos 18, 19 anos.

 

P – Mas eu não fazia nada disso, estava completamente dedicada às artes visuais. Mas foi nessa altura, na faculdade, nas Caldas da Rainha, que começámos a fazer umas brincadeiras. Fizemos um mini tributo a Ray Charles e depois um tributo à Nina Simone, sendo que aí, foi já uma coisa mais encorpada.

 

R – Sim, ainda tivemos umas 11 datas.

 

 

Falem-nos um pouco da relação entre a lei de Lavoisier, à qual vão buscar o nome, e o tropicalismo, ao qual atribuem alguma direcção artística.

 

R – Isto nasce na Alemanha – o projecto Lavoisier. Tínhamos que escolher um nome e eu lembrei-me dele, porque realmente o nosso discurso era muito: “o que é isto de fazer música e porque é que estamos sempre a esbarrar no facto de cantarmos em Inglês?”. Todas essas questões levaram-nos a pesquisar malta que também teve esse conflito dentro deles. Fomos, por exemplo, ao Fernando Lopes-Graça, que falava muito dessa questão identitária e dos problemas da música popular portuguesa. De repente, descobrimos o tropicalismo, que chegou, muito naturalmente, como uma turma brasileira dos anos 70, também com essas questões dentro deles. Nós deliciávamo-nos a ler sobre aquilo, porque era muito o que estávamos a sentir. Nesse canibalismo cultural, eles devoravam o que vinha de fora, mas também devoravam a cultura indígena e africana, que vinha dos escravos. Eles misturavam e comiam tudo e isso dava-lhes identidade e, para nós, essa ideia era muito natural.

 

P – Eu acho que nós sofremos um bocado nas Caldas, porque também estudávamos numa escola de artes e como fizemos o tributo à Nina Simone ouvimos muito: “que chunga, tocarem músicas dos outros”, o que foi um bocado massacrante. A “Verdade Tropical” do Caetano foi um livro que nos fez perceber muitas coisas.

 

R – Mas é giro ires buscar isso, porque nós realmente não acreditávamos muito na posse das coisas. Não era nossa, aquela música, mas porque é que tem de haver esta cultura de propriedade? Realmente, nada se perde, nada se cria, tudo se transforma, sendo que isso até foi uma alavanca para escrever o Lavoisier.

 

 

Foi preciso saírem de Portugal e irem para Berlim, de mochila às costas, para realmente entenderem isso? Porque essa realização, em Berlim?

 

P – Sim, acho que sim. Claro que, às vezes, pensamos se não tivéssemos ido embora, provavelmente os Lavoisier não existiriam, como existem hoje…

Hipoteticamente, como acham que teria corrido, se tivessem ficado em Portugal?

 

P – O Roberto era perchista na TVI. (risos) Eu, provavelmente, estaria a trabalhar em qualquer coisa relacionada com design.

 

R – E fazíamos umas bossas novas. (risos) Não sei. É muito difícil, porque a fim ao cabo nós começámos ainda cá, sendo que esse tributo à Nina foi muito importante, para nós, em termos de uma possível realização pessoal e musical.

 

P – Foi a primeira vez que fizemos dinheiro. Lembro-me de pensar: “o quê? Eu recebo dinheiro para fazer isto?”. Só que depois desse projecto nós percebemos que queríamos ensaiar muito mais, o que, com uma equipa de 10 pessoas, seria impossível. Tudo se tornou mais fácil quando fomos para Berlim, porque nós os 2 ensaiávamos quando queríamos.

 

R – Foi ter a distância necessária. Muita gente fala disso e pode parecer clichê, mas é verdade. O próprio Mozart era um puto que teve o privilégio de viajar por várias cortes, de vários países, na Europa, com 6 anos. Ele absorveu aquilo tudo e tornou-se num dos músicos mais fantásticos, dando uma identidade a um país. Mas o que é facto é que ele também aglomerou várias referências e, quando tu estás fora, olhas para a coisa de outra maneira. És menos preconceituoso e absorves sem julgamento.

 

P – Eu tinha a certeza que ia acabar de estudar e ia-me embora daqui. Não por haver uma crise, mas porque queria mesmo. E Berlim foi um bocado à maluca. Mas acho que fomos, conscientemente, à procura de uma coisa desconfortável. A nossa vida, a determinado ponto, estava a ficar um pouco confortável demais. Mas Berlim é mesmo difícil, porque, de repente, és burro – porque se tu não entendes o que te dizem, tu não és ninguém. Essa severidade foi importante. Nós lá arranjámos um part-time a fazer uma coisa horrível que não gostávamos, porque precisávamos de dinheiro, nos primeiros tempos.

A fazer o quê?

 

P – Opá, era empacotar pilhas…

 

R – … olha, era numa mesa deste tamanho.

 

P – Sim, mas isso foi nos primeiros tempos. O Roberto gosta de romantizar. (risos)

 

R – Mas é verdade!

 

P – Era aquele trabalho que tu fazias dois ou três dias por semana que pagava as tuas contas, sendo que, depois, podias dedicar o teu tempo ao que quisesses. Mas passar esses três dias a fazer uma coisa que não gostávamos, ver o tempo passar e pensar que isto pode ser o resto da tua vida… (risos) Para nós foi mesmo importante dizer: “não, nós queremos fazer música, portanto, é isso que vamos fazer.”

 

 

 

 

 

Berlim acaba por ter uma cena “underground” muito forte. Falem-nos dos sítios mais interessantes onde já tocaram, lá.

 

P – Dentro de uma banheira. Não tinha água, mas foi dentro de uma banheira.

Com muito público?

 

P – Não, com pouco. (risos)

 

R – Por acaso nesse dia até não estava mau. Também tocámos numa galeria. Esta lembro-me perfeitamente. (risos) Era a RatzFatz Berlin. A embaixada, às vezes, vê-se assim nuns negócios mais estranhos. Então nós fizemos a abertura da exposição de um artista português…

 

P – …muito mau.

 

R – Muito mau mesmo. Imagina, as telas não eram pintadas. Ele imprimiu as telas e fez daquilo um quadro. Depois é que percebemos que aquilo era tudo um embuste, ele nem falava português, falava espanhol.

 

P – Mas aquilo era patrocinado pela embaixada.

 

R – E pelo Instituto de Camões, sendo que nós fomos lá tocar também por isso. Mas eram só velhinhos. Chegaram lá, de andarilhos, e sentaram-se. Nós estávamos com tanto medo que começámos o concerto com os amplificadores desligados. Lembro-me de outra situação, estávamos num café a tocar. De repente, o pessoal chegava, abria um armário de parede que lá estava, entrava lá para dentro e desaparecia (risos). Eu olhava para aquela m*rda e virava-me: “Patrícia, tu viste aquilo?”

 

P – E eu igual: “o que é que se está a passar?”

 

R – Pronto, deve ter sido só uma pessoa. Mas depois vêm duas, três, quatro. Como é óbvio, nós acabamos o concerto, abrimos o armário e havia alta rave lá em baixo. Super misterioso.

 

P – Mas sim, coisas muito estranhas. Desde love vibes

 

R – Ah sim, numa exposição. Tocar para pessoal de olhos fechados, deitados no chão. Era uma viagem intergaláctica e nós calhámos no planeta Vénus. (risos)

 

Cantar músicas portuguesas para um público estrangeiro tirou-vos pressão do conteúdo do que diziam, mas obrigou-vos a dar muito mais trabalho à expressão com que o faziam. O que acham desta afirmação?

 

P – Concordo completamente. Quero lá eu saber da palavra, que se perceba ou não se perceba, estou-me a cagar.

E quando voltaram a Portugal?

 

R – Sim, a pressão era outra.

 

P – Mas sempre consciente que, no fundo, não é o que mais importa, pelo menos para nós.

 

R – Eu acho que nós somos muito de contar histórias. Realmente, para os alemães, nós tínhamos de dar algum contexto. Explicávamos o que era a “Maria Faia”, isto é, não lhes dizíamos a letra, mas eles percebiam mais ou menos o contexto das coisas. Chegas a Portugal, sabes que não vais contar a história da “Maria Faia”. No final do dia é a maneira como tu contas a história que interessa.

 

P – Ou como tu cantas a história.… Mas lembro-me que ainda pusemos alguns alemães a cantar “Faia, Maria…” (sotaque alemão) (risos)

 

Relativamente ao vosso último trabalho, “Viagens a um reino Maravilhoso”, porquê a escolha dos poemas de Miguel Torga?

 

P – Há um convite que é feito por parte do Ilídio Marques, da Transa, que desenvolvem os ciclos das “Novas canções da Montanha”, no espaço Miguel Torga, em São Martinho de Anta. Eles queriam muito desafiar artistas para musicar o Torga e então fizeram-nos o convite. Nós dissemos logo que sim, porque, apesar de termos acabado de lançar o “É Teu” e de não estarmos a pensar no próximo projecto, de tudo o que conhecíamos do Torga, fazia muito sentido.

E sentiram que a única maneira de fazer jus ao nome era ir ao local onde ele nasceu e respirar Miguel Torga? Falem-nos um pouco dessa viagem.

 

P – Sim, fez muito sentido. O João Sequeira, que é o director do espaço Miguel Torga, levou-nos, mais do que uma vez, aos roteiros Torguianos – que o Torga também fazia e, quando estava lá, levava várias pessoas com ele. Isso fez cada vez mais sentido poder passar por ali a gravação do álbum.

 

R – Sim, nós tivemos essa oportunidade e privilégio e, apesar de levarmos a guitarra, acabámos por não compor nada em São Martinho de Anta. Mas essa absorção dos cheiros e da paisagem foi muito importante. Além disso, tivemos a oportunidade de ir em Dezembro e estava um frio descomunal, sendo que o Torga é muito visceral e retrata muito bem as sensações. Quando estás lá e sentes aquelas coisas todas, é muito alimento.

 

P – Complementa muito aquilo que tu leste e aquilo que foste imaginando.

 

R – Se bem que, às vezes, o próprio poema dele já é muito descritivo. Muitas vezes lia os poemas e pensava: “é só não fazer asneira”.

 

P – Ele era uma pessoa muito da terra. Ele próprio dizia que era geófago, isto é, aquela pessoa que “come” terra. Depois, enquanto estávamos a gravar o álbum, fomos convidados para fazer um projecto de comunidade, em Vila Real. Estas pessoas não sabiam que estávamos a trabalhar sobre o Miguel Torga, portanto, foi uma coincidência engraçada. Acabámos por trabalhar com os alunos do conservatório e incluimo-los neste trabalho.

 

Para acabar, onde é que o pessoal vos pode ver, ao vivo, nos próximos tempos?

 

P – No dia 16 de Janeiro, estaremos no aniversário do Rivoli, nas Quintas de Leitura, onde vamos apresentar três temas deste trabalho. No dia 17 de Janeiro, que é o dia da morte do Miguel Torga, vamos tocar em Coimbra, na Casa da Cultura e no dia 20 de Março vamos estar em Vinhais.

 




Adicionado por

João Ribeiro

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