No passado dia 12 de Dezembro, os Lavoisier presentearam o Teatro das Beiras, na Covilhã, com temas do seu mais recente LP, “Viagem a um Reino Maravilhoso”, entre outros, naquela que foi a 15ª edição do Festival Y, organizado pela Quarta Parede.

 

Às 21h45, o público enche o auditório do Teatro das Beiras, na Covilhã, e fica de frente para um palco simples, com uma luz azul a iluminar uma guitarra eléctrica e dois microfones. Pouco depois, entram em palco o Roberto Afonso e a Patrícia Relvas, duo mais conhecido por “Lavoisier”. Existe, desde logo, uma ligação ao famoso químico francês e à sua lei – “Na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma” – teoria que influencia a maneira como olham para a música e fazem de letras conhecidas, músicas tão próprias.

 

Quase como numa peça de teatro, o concerto começa com a apresentação das personagens, à vez. Primeiro a guitarra eléctrica do Roberto, depois a voz da Patrícia e mais tarde também a voz do Roberto, sendo que a música escolhida para abrir o espectáculo é “A um Negrilho”, retirada do seu mais recente LP, “Viagem a um Reino Maravilhoso” – uma colectânea de poemas de Miguel Torga, transformados em arranjos musicais contemporâneos.

 

O concerto vai sendo interrompido por histórias de ambos, que dão o contexto de uma música, ou simplesmente arrancam risos da audiência, sendo que, aquando o final da música “Dias Irae”, um silêncio reina na sala, conseguido pelo poder enorme que ambos os músicos dão a esta performance. Com harmonias bem conseguidas e os movimentos da Patrícia, que dão ainda mais força a cada nota da sua voz, o concerto acaba com a música “sou povo”, recebido com uma ovação em pé.

 

 

Lavoisier - Festival Y - Teatro das Beiras

Lavoisier – Festival Y – Teatro das Beiras

 

 

No final do concerto, tivemos ainda a oportunidade de conversar um pouco com o Rui Sena, director artístico da Quarta Parede – associação responsável pela organização do Festival Y – sobre o feedback da noite, a importância de programas culturais e diversificados no Interior e o Festival Y.

 

 

Boa noite, Rui. Comece por falar-nos um pouco da sua ligação com a Quarta Parede.

 

Boa noite. Sou o fundador e director artístico da Quarta Parede, desde a sua criação. Foi um projecto que nasceu na Covilhã, para a região. Definimos como território, a área entre as cidades da Guarda e Castelo Branco, sendo que é isso que temos acabado por fazer ao longo destes 17 anos, nestas 15 edições do “Festival Y” . Quisemos implementar a arte contemporânea em todas as suas áreas, desde as artes visuais, aos media, à performance, à dança e à música, como foi hoje o caso.

 

 

Desde que começou este projecto, notou alguma melhoria quanto à resistência em trazer programas mais diversificados e contemporâneos ao Interior do país?

 

Eu diria que há um fosso cultural no país todo, exceptuando os grandes centros que têm uma oferta enorme, mas que têm apoios completamente diferenciados. O que para mim é mais importante é que fomos crescendo, sempre acreditámos no projecto e fomos criando público. É evidente que, quando falamos de linguagens contemporâneas, acaba por haver uma dificuldade maior de aceitação, já que são novas linguagens. O que não quer dizer que sejam linguagens intelectuais – passa-se muito a ideia de que arte contemporânea é arte que não se compreende, mas não é nada isso. Muitas vezes, a arte que fazemos hoje é o futuro da arte e muitos dos clássicos de que hoje falamos foram arte contemporânea, na sua altura. Portanto, o que nós pretendemos é mostrar que há novos caminhos e criadores e que é possível vê-los, falar com eles e discutir quais são esses caminhos que abrem outras perspectivas da cultura.

 

 

Relativamente ao festival Y, é um festival que tem sido feito todos anos?

 

Durante os 17 anos da Quarta Parede, não fizemos dois anos. Um, porque não fomos apoiados e outro porque não houve concurso e, portanto, também não podíamos ter apoio. Mas, desde 2003, já teve 15 edições, sendo que acaba por ser o festival do Interior, do seu género, com mais edições. Felizmente, está garantido o apoio para as edições de 2020 e 2021, por parte da Direcção-Geral das Artes, da Câmara Municipal da Covilhã e da Câmara Municipal de Castelo Branco. Portanto, eu penso que há um caminho que iremos continuar a percorrer, apesar das adversidades habituais de todas as estruturas.

 

 

O que é que distingue o festival Y dos restantes festivais de cultura, aqui no Interior?

 

Eu gostava mais de falar do que nós fazemos do que aquilo que nos distingue, porque podemos arranjar sempre maneira de dizer, “afinal não há diferença nenhuma”. Há, essencialmente, um grande investimento no trabalho com a comunidade e com a região. Nós não queremos fazer um festival desalinhado com a realidade da Beira Interior. É esse trabalho, virado para as populações, feito muito a pensar nelas e até com actividades direccionadas para elas que, para mim, é o nosso maior desafio. Agora, com certeza que também há outras estruturas a fazê-lo, de maneira diferente. Mas são os caminhos que cada um escolhe e eu fico muito contente, inclusive, se tivermos essa capacidade de fazer coisas diferenciadas, dentro das mesmas áreas. Isto do ser melhor ou pior não é um problema com que a Quarta Parede se debate. Fazemos o nosso trabalho, profissionalmente, há 17 anos e é isso que queremos continuar a fazer. Felizmente, o projecto, mesmo contemporâneo, tem vida na Beira Interior.

 

 

Como sai daqui hoje? Qual foi o feedback recebido?

 

Estou muito satisfeito. Esta não é a primeira vez que programo os Lavoisier, apesar de ser a primeira vez que os programo, na Covilhã. Eles tinham já estado no teatro de Torres Novas, quando eu era ainda o director. Portanto, estou muito contente, porque tenho a oportunidade de ver a evolução dos próprios Lavoisier. Acho que foi um espectáculo fantástico e que o publico reagiu extremamente bem e é isso, no final, que nos interessa – trazer espectáculos contemporâneos que conseguem tocar o público com uma nova abordagem, não linguagem, em relação à musica portuguesa.

 




Adicionado por

João Ribeiro

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