No passado dia 27 de Novembro, os The Gift trouxeram música ao grande auditório do Teatro Municipal da Guarda, no âmbito das comemorações dos 820 anos da cidade da Guarda. O espectáculo foi um misto de estações, já que a banda de Alcobaça presentou o público com temas do seu mais recente álbum – “Verão”, assim como clássicos de álbuns mais antigos, como do “Primavera” (2012)  e do “AM-FM” (2004), entre outros.

 

Durante 1h30m, a voz inconfundível de Sónia Tavares, acompanhada pelos seus talentosos colegas, voltou a espantar-nos como sons tão únicos e peculiares podem criar uma harmonia tão interessante e cativante, com músicas a despertar uma fusão de sentimentos, como Sol, Serpentina, Music, Primavera e Meaning of Life. Após o concerto, João Pessoa, 23 anos, confidencia-nos que, apesar de ser a décima vez que os vê ao vivo, nunca desapontam. Quando questionado sobre o último álbum da banda, responde-nos: “adorei as músicas onde o Brian Eno está a ajudar como produtor. Mudaram um pouco a sequência deles, em termos musicais, mas continuam muito bons.”

 

The Gift - Teatro Municipal da Guarda

The Gift – Teatro Municipal da Guarda

 

No final do concerto, tivemos ainda a oportunidade de conversar um pouco com o Victor Afonso, coordenador e programador do TMG, sobre o feedback desta noite, a importância do TMG na cidade da Guarda e a dificuldade que o Interior de Portugal sente, culturalmente.

 

Boa noite, Victor. Fale-nos um pouco sobre as celebrações onde este concerto se insere.

 

Boa noite. Basicamente, este concerto insere-se nas comemorações dos 820 anos da cidade da Guarda, sendo que o Teatro Municipal da Guarda (TMG), desde que abriu, em 2005, celebra todos os anos este dia especial, com um espectáculo também ele muito especial. Em anos anteriores, fizemos produções com artistas e criadores locais e da região mas, desde há 7, 8 anos, que celebramos o dia com artistas portugueses, de grande nomeada e projecção mediática, de forma a enchermos o grande auditório e o público sair satisfeito.

 

 

Este ano, já houve ou haverá mais concertos relativos a estas celebrações?

 

Não. O programa concentra-se só em dois dias, sendo que, fora das comemorações, não haverá mais espectáculos. O que estamos agora a preparar é, em Abril do próximo ano, a comemoração dos 15 anos do TMG. Nesse mês e nos que se seguem, vamos ter um programa especial com grandes espectáculos e projectos criativos.

 

 

Porquê a escolha dos The Gift?

 

Os The Gift já não vinham ao grande auditório TMG desde 2010 e, portanto, fazendo 9 anos, achei que já era um tempo bastante considerável e que este era o momento ideal para celebrar e comemorar o regresso deles, complementando, claro, com esta data especial – acabou por ser um dois em um.

 

 

Sente que a Guarda é uma das cidades que foge um pouco há regra do fosso cultural que se sente no Interior de Portugal?

 

Desde que o TMG abriu, há 14 anos, que se sentiu uma grande mudança. Principalmente nos hábitos culturais, já que o TMG foi construído não só para a cidade e para a região, mas também para o país. Nós temos espectáculos de artistas internacionais em que conseguimos atrair público fora da Guarda, desde a Covilhã, Viseu, Fundão, Norte e até Espanha, também por causa da proximidade geográfica. Portanto, é um projecto de grande dimensão e de grande ambição que projectou e diferenciou a Guarda, já que, efectivamente, há muitas poucas cidades do interior que têm o equipamento e as infraestruturas do TMG. Eu sei que a Covilhã está agora a reabilitar o Teatro Cine, mas a verdade é que este teatro foi feito de raiz. Com as infraestruturas e os espaços polivalentes que temos aqui, como os dois auditórios, a galeria de arte, o café concerto e a sala de ensaios, conseguimos criar uma programação muito diversificada, com grandes espectáculos, mas também com espectáculos para nicho. O teatro acaba por ser uma infraestrutura que tem uma potencialidade em projectar a Guarda a nível nacional, de uma forma muito pujante.

 

 

Nos 6 anos em que está à frente da coordenação e programação do TMG, notou uma melhoria em relação à facilidade de ter uma oferta mais diversa, ou ainda sente muita resistência do público e da Guarda, no geral?

 

É normal que em qualquer parte do país, ou até em outros países europeus, as propostas artísticas de risco vão continuar sempre a ser de nicho. Mas é muito importante cumprir também essa função de dar uma oferta cultural para nichos. Não faz sentido ter uma casa destas e propor espectáculos só com o intuito de encher as salas – não é essa a nossa política cultural. Também temos que pensar nos públicos do jazz, do teatro e da dança, sendo que, dentro de cada um destes géneros artístico, há múltiplas facções e tendências artísticas mais específicas. Por isso, têm que se pensar numa programação suficientemente diversificada e abrangente para todos as audiências e não só para aquelas que vêm ver pop mais mainstream. Há aqueles que gostam de música jazz, música clássica – as orquestras, um rock mais alternativo, música electrónica ou música de raiz tradicional, ou seja, tem que se pensar nisso tudo. Também na dança contemporânea, na dança clássica, no ballet, no teatro contemporâneo, mais experimental, num teatro mais mainstream e até no stand up comedy de qualidade. Em suma, a nossa direcção é fazer uma programação que cumpra 2 objectivos: qualidade e diversidade.

 

 

Em relação ao concerto de hoje, sai daqui satisfeito?

 

Sim, muito contente. Eu venho ver, practicamente, todos os espectáculos que programo e a minha felicidade é ver que o o público sai contente e satisfeito, sendo que, o feedback que temos tido ao longo destes últimos anos, no global, em termos de programação artística e oferta cultural que temos dado à Guarda e à região, é muito positivo. Isso enche-me de satisfação e é para isso que nós estamos aqui – para cumprir um serviço público.




Adicionado por

João Ribeiro

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