“Tugas do Rock” é uma rubrica semanal, que consiste numa série de entrevistas rápidas a bandas portuguesas de rock, que o Cifras.pt teve a oportunidade de ter no WoodRock, em Quiaios, no passado mês de Julho. No quinto episódio, partilhamos a conversa que tivemos com o Hugo Cardoso e o Gonçalo Alegre, mais conhecidos por Galo Cant’Às Duas.

 

 

Para quem não conhece Galo Cant’Às Duas, como é que vocês descrevem a vossa identidade musical?

 

Hugo – Eu sou o pior gajo para me classificar, porque nem na música que ouço penso nisso. Nós apenas vamos com a vibe daquilo que queremos fazer e, de vez em quando, falamos entre nós. Imagina, agora queremos uma cena mais dance, sendo que isso pode encaminhar-nos para algo mais aberto para respirar, ou não, pode tornar a cena mais intensa, ou não. Mas no geral não pensamos em rótulos.

 

Gonçalo – Há algo que pode explicar isso de uma maneira muito objectiva, que é a forma como nós começámos a tocar. Basicamente, começámos num festival, onde fazíamos parte da organização. O gajo que vinha tocar nesse dia não apareceu e eu fiquei “opá, vamos montar as coisas, vamos tocar e fazemos nós a nossa cena.”

 

 

Isso já está a parecer muito história de filme…

 

G – (risos) Sem dúvida. Nós vínhamos de um outro concerto, no Estoril, estávamos a chegar e eu tratava do som nesse festival. Telefonava ao gajo, mas ele não atendia, até que, quando deu resposta, disse que se tinha esquecido do concerto. Eu tinha lá o contrabaixo e os pedais e decidimos fazer o concerto.

 

H – Foi reagir da melhor forma que conseguimos!

 

G – Reagimos à situação, sendo que aconteceu ali uma m*rda qualquer que ainda hoje não sabemos bem o que foi, mas que para nós foi algo marcante e deu-nos vontade de continuar a trabalhar nisto. Obviamente que, depois, a condução da música muda à medida que nós nos sentamos em casa e no estúdio, para começar a trabalhar. A partir daí, as cenas começam a tomar uma direcção mais sólida e foi toda uma longa viagem até estarmos aqui hoje.

 

 

Falem-nos um pouco mais desse primeiro concerto. Como é que correu?

 

H – Estávamos num encontro de artes, na Aldeia da Moita, em Castro Daire, a trabalhar para o GEIC, que é uma associação cultural de Lisboa, que faz essa produção. Depois, isso aconteceu e nós dissemos um para o outro: “man, então vamos tocar”, sendo que estarmos em casa com família e amigos tornou a decisão mais fácil.

 

G – Se tiverem curiosidade em ouvir, isso está no soundcloud. Está gravado essa cena – o renascimento do galo.

 

H – A luz foi abaixo duas vezes!

 

G – Estava uma grande trovoada. Aquilo foi no Verão, em Julho.

 

H – Foi daquelas trovoadas de Verão. Nós até metemos umas velinhas.

 

G – Estava um cenário mesmo cozy. À terceira vez que a luz foi abaixo, pronto, acabou. Está feito!

 

H – Foi meia hora de concerto.

 

G – Mas estava o dia e a semana ganha, foi uma cena do c*ralho!

 

 

É a vossa primeira vez no WoodRock?

 

H – É sim. Nós viemos à Figueira tocar há um ano, mas foi no sítio das artes, numa tour que estávamos a fazer com os The Lazy Faithful e os CAN CUN, cá em Portugal. Acho que foi por causa desse concerto que conhecemos a malta, sendo que curtiram o nosso som, o que levou a este convite.

 

woodrock - Galo Cant'Às Duas

Galo Cant’Às Duas – Woodrock 2019

 

Primeiras impressões do WoodRock?

 

G – A malta é super afável e nós estamos tranquilos. Viemos fazer a nossa cena e estamos a ser muito bem tratados.

 

H – E o mais importante, divertimos-nos bastante!

 

 

O que acharam do Palco Mato?

 

H – Opá, resulta meu! Claro que ter quatro bandas ali causam um problema do caraças a nível técnico, mas a verdade, pelo menos para nós, é que correu tudo bem, apesar de todas as cenas. O Bernardo, o Rafael e a malta que está connosco fizeram a cena da melhor forma profissional e tudo correu bem. E o público é do caraças! Nós estávamos a comentar isso à bocado com a malta do festival. São verdadeiros e isso não é assim tão frequente de encontrar, mesmo em festivais.

 

 

Preferem tocar ao ar livre ou tocar numa casa mais fechada?

 

G – É diferente, mas ao ar livre tem destas coisas que é, a malta pode vir ter contigo à frente, percebes? E nós reagimos de outra forma a essa intimidade.

 

H – Nós adoramos tocar em festivais e é também o nosso objectivo, mas a nossa direcção é mais teatros, para nós também conseguirmos pensar no nosso espectáculo mesmo à séria, já que costumamos trabalhar com um DJ, onde aqui não foi possível. Mesmo a nível do desenho de luzes. O Bernardo, na fotografia, precisa de luzes específicas e, muitas vezes, ao ar livre, não são possíveis. Opá, mas é o que nós dizemos, este é daquele tipo de festivais que é Rock n Roll e isso é fixe. É mais puro e cru, estás a ver? Um gajo também precisa disso.

 

 

Vocês começaram mais num registo do improviso e este último EP é mais definido…

 

H – Sim, é o oposto.

 

 

Como é que foi essa transição? Dão por vocês a meio de uma música a deambular e têm de se obrigar a voltar ao set definido?

 

H – Sim, acontece. O processo deste último disco demorou um ano e tal, onde nós compusemos em residências artísticas e discutimos muitas coisas. Foi um pouco aquilo que eu disse ao início. Sabemos para onde é que queremos ir e se está a soar bem ou não. Se não, vamos mudar. Quisemos mais beat, melodias que entrem mais na cabeça, um equilíbrio maior e introduzir a lírica e as nossas vozes. Ou seja, foi um processo muito mais pensado do que o “Anjo Também Canta”, um disco que foi practicamente construído na estrada. Agora, claro que há um equilíbrio daquilo que é o nosso sangue inicial, essa nossa crueza, e um lado mais comercial. Mas foi mesmo isso que nós procurámos, porque também estávamos a precisar de provar a nós próprios que éramos capazes de fazer isso, sendo que era fácil, para nós, criar algo idêntico, só instrumental, já que isso acaba por ser a nossa escola. Assim saímos do conforto e estamos felizes com o resultado.

 

 

Pessoalmente, cresci muito com músicas que iam até aos 30 minutos, como por exemplo a “Thick as a Brick”, do Jethro Tull…

 

H – Olha, Jethro Tull. Também cresci com isso. Aliás, nós ouvíamos muito “Thick as a Brick”, nas residências artísticas.

 

 

Essa decisão de contrariar a norma, dos 2, 3 minutos da rádio, veio por acaso?

 

H – Foi a direcção que escolhemos, porque há sempre outros caminhos. Apesar desta decisão de termos mudado o registo do primeiro disco para agora, a viagem mantém-se. Até pelo nome, não é? “Cabo da Boa Esperança”. Mas foi algo natural, as coisas foram-se concretizando e foram dar ao seu destino.

 


 



Adicionado por

João Ribeiro

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