Após uma noite protagonizada pelos Capela Mortuária, Zurrapa e Simbiose, a vigésima edição do Butchery at Christmas Time voltou no dia 14 de Dezembro, no Centro Cívico da Vila do Carvalho, com um horário muito mais ocupado. Neste segundo dia de festival, foram sete as bandas que pisaram o palco: Divine Ruin, Homicidio, Grindead, Alcoholocaust, Theriomorphic, Avulsed e Serrabulho.




Apesar de muitos estarem à espera dos concertos dos três últimos mencionados, o recinto já se avolumava de forma bastante razoável, antes do primeiro concerto. Novamente, o segundo dia de festival foi oficialmente aberto por Renato Folgado, fazendo uma actuação que, apesar de idêntica ao dia anterior, não perdeu qualquer tipo de impacto. Foi como uma espécie de profecia para o que acabaria por vir – algo que todos os presentes já estariam preparados: um dia cheio de música extrema.

 

 

A primeira banda a pisar o palco foi Divine Ruin. Originários da Covilhã, focaram-se muito na música instrumental, sendo que, por vezes, lançavam algumas jams que quase abandonavam o género do metal, contando também com esplêndidos solos, ora vindos do baterista Guilherme Poeta, ora vindos do baixista Joey Prazeres. Porém, antes de tocarem a faixa “Eternal Bloodshed”, o vocalista, João Afonso, afirmava que: “a partir daqui, entra a parte verdadeiramente pesada do concerto”. E tinham razão – a partir daí foi rebentar e partir de forma ainda mais intensa, dando o litro extra até à faixa final: “Necrópia”.

 

Divine Ruin

Divine Ruin – Butchery at Christmas Time

 

Após um breve intervalo, a chefia do palco é transferida para os Homicidio, banda vinda da região espanhola da Cantábria e autores de “Peste Negra”, álbum lançado em 2018. O concerto contou com muito headbanging da parte do vocalista – que até acabou por se juntar a um público, bastante receptivo, para um ou dois moshpits – e com um imensa agressividade que mostra exactamente aquilo de que o grindcore é feito. Contudo, o grande destaque foi a poderosa performance do baterista Berton, que se mostrou absolutamente incansável ao longo de toda a actuação.

 

Homicidio - Butchery at Christmas Time

Homicidio – Butchery at Christmas Time

 

De seguida, a tocha passou para os Grindead, banda criada a partir das cinzas dos Genocide, que não desapontaram o público que se avolumava cada vez mais. “Freedom”, ditava a camisola do vocalista. Coincidência ou não, transmitiu exactamente aquilo que foi o concerto. Os Grindead foram absolutos donos e senhores do palco durante o tempo em que o pisaram. Foram agressivos (para bom agrado do público), actuando como quem está sedento por uma destruição em massa. Além de cantarem canções originais com todo o tipo de mensagens, desde análises ao comportamento humano perante a religião, às “máquinas que são as democracias disfarçadas”, o grupo não conseguiu evitar fazer uma homenagem à banda que os originou – a partir da canção “Dissection” – e àqueles que consideram ser um dos ícones do grindcore – Brutal Truth, com uma cover da faixa, “Stench of Profit”.

 

Grindead - Butchery at Christmas Time

Grindead – Butchery at Christmas Time

 

Após uma pausa para jantar, o palco reabriu com os Alcoholocaust, que levaram o nome da sua banda bastante a sério, visto que o que não faltava no palco eram instrumentos musicais e uísque – partilhado por toda a banda e até por qualquer um sortudo, no público. Durante toda a actuação, insistiram – quer seja de forma musical ou comportamental – que se tratavam de uma banda, avidamente, anti-posers e anti-sobriedade. Um comportamento ao qual o público, exaltadíssimo, assinou por baixo.

 

Alcoholocaust - Butchery at Christmas Time

Alcoholocaust – Butchery at Christmas Time

 

O palco recebeu também os lisboetas, Theriomorphic: indiscutivelmente, uma das bandas mais icónicas do death metal lusitano, que lançou no ano passado o EP “Of Fire and Light”. Recentemente renovados e rejuvenescidos por Jó – o vocalista e único membro incluído na banda há mais de um ano – o quarteto lisboeta tocou faixas de toda a discografia em frente a um público absolutamente eufórico.

 

Theriomorphic - Butchery at Christmas Time

Theriomorphic – Butchery at Christmas Time

 

A penúltima actuação pertenceu aos espanhóis, Avulsed. Cabeças-de-cartaz neste festival, o experientíssimo grupo madrileno pôs o público ao rubro. Destaca-se a presença de palco impagável do adestrado, Dave Rotten, que já passou por outras bandas como Christ Denies, Golgotha e Putrevore e que, neste concerto, foi alvo de um crowd surfing e de vários mosh pits. Musicalmente, a banda levou o death metal e o metal industrial aos seus limites, tornando a actuação fatalmente electrificante.

 

Avulsed

Avulsed- Butchery at Christmas Time

 

Por fim, quem fechou a noite foram os Serrabulho, que se apresentavam constantemente como RDB, nome da banda actual do organizador do evento, Micael Olímpio. Como de costume, a banda de Vila Real entra em palco com as suas devidas fatiotas (destaca-se a fatiota de D. Afonso Henriques usado pelo guitarrista Paulo Ventura), criando um espectáculo que nunca desapontaria ninguém, misturando o grindcore/grindgore com humor de uma forma que, o público que se encontrava irrequieto e enlouquecido durante cada segundo do concerto, adorou completamente. No início do concerto, foram atirados balões, fitas de Carnaval e até mesmo algodão vindo de almofadas. A meio, o vocalista cantava no seu microfone apoiado a uma pá onde se lia “Grind is Love”, enquanto fazia o comboio com as linhas da frente. Mais para o fim, uma cover alterada de “Sweet Child O’ Mine” e o festejo do aniversário de um elemento do público. Enfim, foi um autêntico espectáculo ao qual dificilmente se ficaria indiferente e uma boa maneira de acabar o festival.

 

Serrabulho

Serrabulho – Butchery at Christmas Time

 

Durante o festival, tivemos ainda a oportunidade de falar um pouco com o presidente da Associação Cultural Neverlate e responsável por este festival – Micael Olímpio.

 

Boa noite, Micael. Ainda estamos a meio do festival, mas qual é o feedback, até agora?

 

Está a ser dos melhores anos que tivemos, até agora, quer seja em termos de cartaz ou em termos de público. É verdade que já tivemos cartazes com bandas com mais nome, mas eu não gosto de medir cartazes, nesse sentido. Já em termos de público, temos pessoal a vir de todo o lado. Há aqui pessoal do Algarve, de Vila Real e até mesmo de Valladolid e da Cantábria, na Espanha.

 

 

O Butchery at Christmas Time já vai na sua vigésima edição. Como vês a evolução deste festival, desde a sua primeira edição, em 2000, até agora?

 

Nós tentamos sempre evoluir um pouco, mas é difícil. Sem muitos apoios, nunca conseguiremos trazer, aqui à Covilhã, bandas que atraiam muito pessoal do litoral. Eles têm demasiada oferta lá para virem ao Interior de propósito para ver um festival destes, enquanto nós, no Interior, vamos ao litoral propositadamente para ver concertos. Nós chegámos a concorrer ao programa do associativismo cultural – um argumento que foi aprovado no ano passado – e foi-nos atribuído um valor dependente do programa que apresentámos para o plano de actividades anuais. Ainda assim, mesmo com esse apoio, é impossível haver grande foco no nosso festival enquanto existirem auto-estradas como a A23 ou a A25, com portagens exuberantes. A gente tenta, mas a verdade é que o pagamento está lá! Bilhete, mais portagens, mais alugueres… Fica demasiado caro.

 

 

Achas que o facto de o festival ser para um nicho muito específico, dentro do próprio metaldeath metal e grindcore – também contribui para essa dificuldade?

 

Sim, claro. Somos o terceiro festival de metal e dos seus sub-géneros mais antigo em Portugal, mas não somos tão abrangentes quanto, por exemplo, o Mangualde Metal Fest, organizado por um amigo meu.

 

 

Crês que o festival vai buscar, em termos de público local, mais universitários ou pessoas de uma geração mais antiga?

 

Nós temos algum elo com os estudantes que estão na Universidade. Todos os anos tentamos fazer com que haja uma aproximação com o pessoal que entra e que gosta deste tipo de música. Fazemos isso através de concertos mensais que a Associação Neverlate organiza. Com isso, eles acabam por se envolver naquilo que é o Butchery. Por isso, surpreendentemente, tem havido um rejuvenescimento no público. E ainda bem, porque senão isto tudo desapareceria, eventualmente.

 

 

Por fim, fala-nos um pouco da associação cultural ligada ao festival: a Associação Neverlate. Há quanto tempo existe e qual o objectivo a que se propôs, desde o seu início?

 

A Neverlate nasce precisamente por causa do Butchery. Nós já organizávamos isto há muitos anos! Não sei se estão familiarizados com a história do festival, mas começámos em 2000, na Guarda, como uma forma de publicitar a minha primeira banda – os Necrose. Em 2010, mudámo-nos para a Covilhã, porque me dava mais jeito em termos contabilísticos e logísticos. A certa altura, foi-nos dito que, como já organizávamos isto há muito tempo, tínhamos de criar uma associação. Nós éramos um grupo informal de jovens e precisávamos de estar ligados a uma associação para receber apoios, não necessariamente monetários (só recebemos disso esta edição), mas a nível de infraestruturas. A Neverlate acabou por ser criada como uma espécie de defesa a toda a burocracia que nos foi imposta.

 




Adicionado por

João Pedro Antunes

PARTILHAR

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *